As
animações constituem um setor do cinema onde os rastros da magia e do mito
podem ser percebidos sem muita dificuldade. Daí, não é de surpreender que nos
defendamos das animações, nós racionalistas desencantados, exorcizando suas
ambiguidades seja por meio de um discurso destimificador que busca baratear o
sentido das imagens, traduzindo-as a partir de categorias das hermenêuticas da suspeita (Ricoeur) –
ideologia, inconsciente, estrutura etc –, seja alcunhando-a de infantil, como
se isso significasse superficialidade, entretenimento não instrutivo,
passatempo bobo.
Não
devemos pensar que a imagem, da animação ou do cinema em geral, seja
intraduzível, nem que sejam ilegítimas as explicações derivadas das
hermenêuticas da suspeita. O que parece ilegítimo é o uso puro e simples da
animação, para desmitificar ou ainda para moralizar. Há um ódio à arte, ou pelo
menos uma insensibilidade patológica, naqueles que só sabem vê-la como
ilustração de forças ou verdades exteriores a ela. Pensemos numa professora bem
intencionada que usa um produto como Toy Story 3 (Lee Unkrich, EUA, 2010) para
reforçar um discurso edificante sobre a amizade ou num crítico cultural que se
vale da mesma obra para demonstrar a aliança entre a indústria cinematográfica,
consumo e reificação. Quem há de negar que Toy Story 3 seja uma bela parábola
sobre a amizade? Quem também há de negar que o filme abusa do merchandising,
elevando, por exemplo, a chatinha da boneca Barbie – cuja filosofia de vida (um
amálgama grotesco de consumismo, egolatrismo, “coleguismo”, hedonismo,
ecologismo, feminismo, moralismo e fetichismo) é das mais estúpidas já
imaginadas neste planeta – ao status de heroína altruísta e até simpática?
Penso,
porém, que Toy Story 3 escapa com folga dessas simplificações. Como um de seus
modelos ancestrais – “O soldadinho de chumbo”, de Hans Christian Andersen –,
ele aceita, por seu caráter de parábola, ser simplificado, mas é tão cheio de
sutilezas, tão eivado de imagens susgestivas, que logo se vê a incompletude e,
em alguns casos, a farsa de tais simplificações. O mundo de Toy Story 3, assim
como o do soldadinho de Andersen, é fantástico e crível; é aconchegante e
misterioso; está bem longe e bem perto de nós. Além disso (sou tentado a dizer:
acima disso), são mundos regidos por uma honestidade notória perante os eventos
da vida. Por isso, apesar de serem mundos preferencialmente “para crianças”,
neles a velhice, a morte, a solidão e o abandono não são mascarados por
piadinhas. Há humor? Sim, mas não um humor que seja um virar de costas para a
vida “real”, com seus problemas “reais”. Em Andersen, o lirismo de uma
sensibilidade profundamente religiosa doa beleza a eventos como a morte, o frio
e abandono sem que a verdade do evento seja esmaecida; na trilogia Toy Story quem
filtra o lado “feio” da vida (morte, abandono) de seus temores e nos devolve a
sensatez necessária para encarar as durezas da vida é o magnético cowboy Woody,
desde sempre o brinquedo preferido de Andy.
Nos
últimos dez anos de cinema estadunidense, Woody é um dos personagens mais
maduros que apareceu; sua capacidade de auto-sacrifícios em nome de seus credos
e de sua “família” lembra alguns heróis de Clint Eastwood (por exemplo, o Walt
Kowalski de Gran Torino).
Eu
gostaria aqui de tentar destecer um pouco a complexa rede de simbolismos e
alusões que Toy Story 3 tece. Pensar um pouco mais sobre o contraste entre
tradição e modernidade que o filme elabora a partir da contraposição entre
cowboy Woody e herói espacial Buzz; pensar o caráter desmontável de Sr. e da
Sra. Cabeça de Batata à luz das idéias a respeito das identidades fragmentadas
da pós-modernidade; pensar com Foucault sobre a vinculação entre instituição e
produção de regimes de verdade, a fim de entender melhor a domesticação dos
corpos e a produção de subjetividades na creche de Sunnyside. Poderia também
mostrar como o filme desmonta uma série de preconceitos e estereótipos com
bastante humor e uma inteligência muito acima da média – por exemplo, pôr um
ursinho rosa e cheirando a morango silvestre como vilão-mor; reverter a
alienação religiosa dos 3 marcianinhos (“O Garra!...”) em fonte de salvação dos
demais brinquedos, quase consumidos por um incinerador muito semelhante ao
Inferno de certa vertente do imaginário cristão; satirizar de maneira politicamente
incorreta o homossexualismo recalcado do egocêntrico Ken. Porém, mais
importante do que tudo isso, para quem de fato gosta de cinema, é a convivência
amorosa com as imagens que nos impactaram. Nisso há uma sabedoria que não se
desvincula do afeto.
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