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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Retalhos [4]: Rei do camarote, homem emocional, empatite etc


# 1

Sobre o REI DO CAMAROTE, duas observações: 1) Como supostamente falou Borges, "o luxo é a forma mais dispendiosa da vulgaridade"; 2) Haja ressentimento coletivo! Ver gente que só não é tão vulgar como o "rei" por não ter recursos a pregar lições de humildade e bom senso é de embrulhar o estômago!

# 2

“Cada período da história tem seu tipo humano ideal. A sociedade medieval conheceu o cavaleiro valoroso e cortês. O Renascimento inventou o homem da corte, il cortegiano, mescla harmoniosa de decoro, elegância, virtude e fidelidade ao príncipe. O século XVII teve o homem de sociedade, o século  XVIII, o filósofo esclarecido, e o século XIX exaltou o empresário audacioso, o ‘burguês conquistador’. Qual é, em nossa época de individualismo extremo, o tipo humano ideal? É o ser que cultua a emoção, o homem emocional, o Homo sentiens.
(...)
O ideal do homem emocional é acompanhado por uma exigência de autenticidade. O indivíduo só é ele mesmo, enuncia esse ideal, a partir do momento em que pode sentir e exprimir as emoções que nos agitam a alma.
(...)
Com essa exigência de autenticidade articula-se uma filosofia antiintelectualista, que está em plena ressonância com o espírito de nossos tempos. O culto da emoção inverte a escala habitual das faculdades da alma. Faz com que a celebridade desça do seu pedestal. A existência realmente humana, segundo ele, não é a que nos leva à intelectualidade, mas a que conduz ao sensório, ao primitivismo dos sentidos.”
(Michel Lacroix, “O culto da emoção”, 2006, p. 37-38)

# 3

Amigos e amigas que compram no Estante Virtual! EVITEM comprar pela LIVRARIA PAPIRUS SEBO, de Curitiba. Comprei o livro "Destino e Identidade", de Hubert Lepargneur, no início de setembro e até hoje nada! Começaram culpando os Correios e agora sequer me respondem. Compro no Estante Virtual desde 2006, já fui até vendedor por lá e nunca isso havia me acontecido. A LIVRARIA PAPIRUS SEBO NÃO É SÉRIA!

# 4


Posso me esquecer de muitas coisas, mas jamais da primeira camisa do Corinthians que eu ganhei. Em meados da década de 80, meu amigo e parente Manoelpereira veio de São Paulo para Valença-PI com uma Kalunga-Topper dessas e, ao saber que eu era corinthiano, me presenteou com ela. Não sei se em toda minha vida cheguei a ganhar um presente melhor. Até hoje a simplicidade do modelo da Kalunga-Topper anos 80 me fascina: é a minha preferida de todos os tempos. Minha primeira namorada acho que se chamava Leda, não lembro bem. Mas da primeira camisa do Corinthians eu nunca me esquecerei.

# 5

30 milhões de brasileiros estão sofrendo de uma doença chamada EMPATITE. Os principais sintomas desse mal são o tédio, a apatia, o sono frequente e o desapego ao time do coração.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Retalhos [3]


"A Razão do Poema", de José Guilherme Merquior, acaba de ser relançado pela É Realizações. Fiz um posfácio para esta nova edição - "A razão poética segundo José Guilherme Merquior" - explorando basicamente dois pontos: a ligação daquele livro com a obra posterior de Merquior e os valores que guiam as escolhas e os julgamentos do autor nos ensaios críticos e analíticos ali contidos. Um dos poucos livros sobre poesia, escrito por um brasileiro, que podemos qualificar de clássico imprescindível.


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DE UM DIÁLOGO COM MEU FILHO

-Aquela parte do livro que a gente pula.
- Qual, Icaro?!
- O prefácio.

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E em meio às habituais - e não raras vezes, justas - contestações ao Prêmio Jabuti, tomo ciência de que meu mestre LUIZ COSTA LIMA conquistou um justíssimo primeiro lugar na categoria "Teoria e crítica literária" com o seu A FICÇÃO E O POEMA. Tive a honra de ser um dos primeiros a comentar brevemente aquela obra e fazer uma rápida entrevista com seu autor, na dEsEnrEdoS. Quem desejar re/ler, eis o link: http://desenredos.dominiotemporario.com/doc/15-ent-LCostaLima.pdf

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Descobrir que importamos pouco, e para bem poucas pessoas, é desconfortante no princípio e uma alegria duradoura quando refletimos mais a fundo. Como disse um filósofo, quem ama demasiado a humanidade se esquece do homem concreto. Quem diz que tem 500 amigos é provável que tenha de fato 1 ou nenhum; quem diz que tem 3 é bem capaz de ter realmente 3 amigos. Quando essa descoberta de nossa pouca importância se dá num contexto de fé autêntica, alegria torna-se mesmo uma palavra insuficiente, imprecisa: talvez devêssemos falar em graça. Falta bom senso e maturidade - acima disso, falta fé - em quem quer ser marcante a qualquer custo e para um monte de pessoas. Raras são as celebridades sem pés de barro e os populares sem laivos de fascismo.



segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Santa Teresa d'Ávila, padroeira dos professores


Hoje é o dia dos professores, cuja padroeira é Santa Teresa d’Ávila, a grande mística espanhola do século XVI e, para mim, a maior escritora de seu idioma. A respeito da grandeza e da significação cultural de Teresa d’Ávila, Carpeaux escreveu uma belíssima síntese no artigo “A lição de uma santa” (http://www.rainhamaria.com.br/Pagina/11267/Artigo-de-Otto-Maria-Carpeaux-A-licao-de-uma-Santa). Sua obra “O castelo interior” é a que mais recomendo: está sem dúvida entre o que de melhor e mais profundo produziu a humanidade em qualquer época e lugar. Em 2009, traduzi dois poemas da santa para a dEsEnrEdoS: http://desenredos.dominiotemporario.com/doc/02_traducao_-_teresa_davila_-_wanderson.pdf. Próximo ano virá à luz, pelas Edições Nephelibata, um pequeno volume de poemas dela e de Juan de La Cruz traduzidos por mim.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Retalhos [2]






Tá certo, tudo bem: toda seleção é questionável e pode ser que bons e ótimos poemas tenham ficado de fora (lembro pelo menos de um do Torquato e outro do Leminski melhores que os selecionados). Mesmo assim me espanta a debilidade dos 10 poemas escolhidos - a imaginação rasteira, o nível cognitivo e o domínio linguístico ginasianos, a pobreza experiencial e a secura espiritual. Eu não tenho dúvidas de que tomada em seu conjunto, desconsiderando portanto esta ou aquela contribuição individual, a Poesia Marginal foi a pior merda que aconteceu à poesia brasileira no século XX

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"Causou-me sempre uma certa angústia pensar que todas as línguas se limitam a meia dúzia ou uma dúzia talvez de palavras para nomear tudo o que uma pessoa pode sentir por outra, pode pretender de outra. Enquanto que os vocabulários da agricultura, da pecuária, da caça, da guerra, dos jogos são prolixos, minuciosos, inesgotáveis, o da convivência pessoal é incrivelmente tosco. E como a língua fornece a pauta da primeira interpretação da vida, a prisão linguística obstrui a liberdade das relações pessoais. Não sabemos bem o que pretendemos de cada pessoa - e de fato não o pretendemos e não o conseguimos - porque não temos palavras com que o nomear" (JULIÁN MARÍAS, "Antropologia metafísica", p. 235-236)


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O Facebook é o lugar inautêntico onde as pessoas mais clamam por autenticidade. Não suporto mais esse lengua-lengua de 'seja você mesmo e viva feliz'. Primeiro, é uma grande besteira esse papo de ser feliz; quem cai nessa vive geralmente mentindo para si e para os outros, levando bofetada da vida e fingindo que está sendo beijada. Segundo, ser você mesmo custa caro: a autenticidade raramente é premiada. Se você quer ser você mesmo, ainda que seja uma pessoa polida e compreensiva, prepara-se para as porradas do mundo!

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“Trazendo o texto para a realidade...”. De cada dez vezes que ouço esta frase, em nove delas a pessoa quer mesmo é recusar o esforço interpretativo e ficar no seu mundinho particular. Pura negação da alteridade.

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“A vida é um combate cotidiano contra a estupidez própria” (Nícolas Gómez Dávila).

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Olhos de serpente (Dangerous game / Snake eyes, EUA, 1994), de Abel Ferrara


Os personagens de Abel Ferrara encontram-se na encruzilhada entre o vício e “o salto para a fé” (Kierkegaard). Não há espaço, no mundo de Ferrara, para outro tipo de gente senão o libertino e o convertido (ou o libertino a caminho da conversão). Trata-se, portanto, de um mundo movido pelo excesso, um mundo situado à beira de um apocalipse, onde a medida do bom senso não tem vez. Se os personagens vivem a danação, o estilo lhes faz jus: Ferrara é rigoroso, elabora com cuidado a encenação, mas faz isto desprezando olimpicamente a tomada rara e o efeito belo. Quando a beleza aparece, aparece submetida à idéia. Religioso, mas também trágico, Ferrara não contempla, não poetiza. Em vez do plano-sequência “espiritualizado” de Tarkovski, a câmera de Ferrara treme, tateia, alucina. 

Olhos de serpente (1994) está longe de equiparar os melhores filmes de Ferrara (O Rei de Nova York, Vício Frenético, Maria), mas representa com muita dignidade a insistente imersão de Ferrara nas entranhas do homem em danação, dos degradados carcomidos de culpa. Eddie (Harvey Keitel) é um cineasta que está filmando uma história a la Bergman sobre um casal em crise. Sua dupla de atores é formada por Francis (James Russo) e Sarah (Madonna, provando ser atriz de primeiro time). No filme dirigido por Eddie, o conflito básico é gerado pela incompatibilidade de gênios entre Sarah, recém convertida, e Francis, que não só continua na “bagaceira” como também não suporta a nova vida de Sarah. Estamos num palco que Ferrara conhece bem: o do destino humano dividido entre danação e salvação num mundo regido pelo mal.

Como no conto “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, de Jorge Luis Borges, a ficção (encenada no filme de Eddie) começa a envenenar a realidade, e o cotidiano dos protagonistas do filme e também o do diretor começa a desabar. Francis é a primeira vítima, ao se perder na intensidade do seu papel, mas nada é mais dolorosamente degradante do que o progressivo esfacelamento da família de Eddie (esfacelamento, aliás, que já se anuncia sutilmente na primeira cena do filme). Ao recorrer a mise en abîme, mostrando o filme dentro do filme, Abel Ferrara quer menos refletir sobre os processos de sua arte do que nos falar de algo (em termos metafísicos) muito mais grave: o mal. Sobram farpas também para Hollywood e sua indústria do estrelato. Muitos elementos de Olhos de serpente foram retomados e aprimorados no espantoso Maria (2005), sobre qual um dia terei de escrever.


terça-feira, 24 de setembro de 2013

Retalhos [1]


Se há uma marca singular da cultura universitária brasileira hoje é a presença soberana, impositiva, dos formulários. Uma das principais atividades de um professor com doutorado em uma universidade pública hoje é preencher formulários; sua principal virtude é a paciência. Capacidade intelectual e domínio de escrita são importantes, mas não imprescindíveis: um professor burro e incapaz de articular duas frases com um conectivo correto, se tiver paciência e pegar o jeito do gênero formulário, preenchendo-o com aquelas fórmulas batidas, pode mover mundos.

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A dEsEnrEdoS acaba de conquistar o Qualis B4 na área de Educação. Antes já possuíamos aquela qualificação em Letras, História, Filosofia e Teologia. Nosso Qualis até poderia ser maior, mas é sempre bom lembrar que somos independentes, sem vínculos com editoras ou programas de pós-graduação. O que nos alegra é que, desde o princípio, procuramos estimular o debate de Humanidades sem preconceitos, embora tomando como eixo central a Literatura. Não por acaso nos denominamos "uma revista de cultura e literatura". Agradeço aqui a todos que, direta ou indiretamente, contribuíram nesses anos com a revista!

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A leveza custa caro. É difícil. E às vezes apenas procrastina uma dor maior. Por isso eu gosto tanto dos islandeses do Múm: http://www.youtube.com/watch?v=VeaRDcdwrZg


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O IRON MAIDEN é minha madeleine proustiana. Uma parte de minha história adolescente passa como um filme em minha cabeça quando os caras começam a tocar. Eu nem sei se estou aqui onde me encontro ou se estou lá em Valença, no início dos anos 90, com alguns amigos que me são diletos até hoje.

Falo isso tudo do Iron Maiden sem fazer nenhum ajuizamento estético sobre a banda que hoje ouço muito pouco. A maior besteira do mundo é supor que só as grandes obras e os grandes mestres abalam profundamente a nossa vida.

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"Escrever as coisas tal como aconteceram é tornar-se escravo de sua própria memória, que é um elemento menor do processo criativo [...]. Os materiais são de fato extraídos da vida do autor, mas em última análise a criação é uma criatura independente [...]. A realidade é sempre mais forte que a imaginação humana. Além disso, a realidade pode se dar ao luxo de ser inacreditável, inexplicável, desproporcional. A obra criada, infelizmente, não tem esse direito." (Aharon Appelfeld)

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Há um bom tempo venho dizendo que o espaço de comentários de sites e blogs é o esgoto da notícia. Sob o pretexto de democratizar o debate, este espaço tem servido mesmo é para escroques e pusilânimes, escondidos sob a proteção do anonimato ou do perfil fake, despejarem ignorância, preconceito e grosseria. Lendo agora mesmo, no blog do Alfredo Werney, os comentários de anônimos a uma crítica que ele fez do filme "Cine Holliúdy" reforcei esta minha crença. Apenas um comentário, embora grosseiro, propõe uma leitura alternativa; o restante nem merece ser lido até o final. Me solidarizo com o Alfredo e com todas as pessoas que, sem ganharem um centavo, buscam impulsionar o debate cultural na rede e só ganham em troca as patadas de covardes que sequer têm a hombridade de mostrarem a cara. Discordar só é válido se houver bom senso e argumento - quem só sabe xingar está num nível infra-humano de convivência.