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sábado, 12 de abril de 2014

Jornalismo e (falta de) mérito

Não é purismo linguístico, mas me doeu ouvir o Silas Freire falar, agora há pouco, em "pequena menoria". Quisera Deus, porém, que a inépcia linguística fosse o problema maior dele e de outros comunicadores de nossos programas locais. Vamos falar sério: uma cidade que possui formadores de opinião no nível do Silas, do Efrém Ribeiro, do Beto Rego e do Pádua Araújo está culturalmente agonizando e impermeável à noção de meritocracia que deve pautar o debate na esfera pública . Sem nem hesitar eu sou capaz de citar 50 alunos meus que falam, escrevem e opinam melhor do que estes quatro cavalheiros. Mas, então, por que eles continuam nos meios de comunicação destilando burrices e lugares-comuns superficiais? A reposta é simples porém cruel; simples porque não é segredo nem exige anos de pesquisa e cruel porque fere frontalmente nossa autoimagem já tão surrada: NÃO SUPERAMOS COMPLETAMENTE AINDA NEM O CORONELISMO NEM O ANALFABETISMO.

[31- 03- 2014]

quarta-feira, 19 de março de 2014

Uma parábola piauiense



Era uma vez um piauiense. Um dia, ele subiu numa carnaúba bem alta e ficou a contemplar a paisagem até que, distraído, tombou das alturas e se estatelou no lajedo feito jenipapo maduro. Muito machucado, ele levantou a cabeça e não viu ninguém. Como não havia ninguém para ver o que lhe ocorrera, o piauiense ficou sem saber o que se passava com ele. Então, 2 anos depois da queda, passou um carioca e disse-lhe: "Nossa, piauiense, como você está ferido!". Ao ouvir isso, o piauiense começou a sentir dor por todo o corpo; era uma dor insuportável. E enquanto o piauiense se estribuchava de dor, já 4 anos após a queda, surgiu um paulista e disse-lhe: "Olha, seu caso é grave!". Mal ouviu essa frase do paulista, o piauiense deu o último suspiro e morreu.

O cultivo dos erros




“A gente aprende com os erros" - mas não só com os erros. Pararemos com essa autocomplacência pueril de se orgulhar dos erros do passado, como se eles fossem a condição única e exclusiva para alçar-se à maturidade. Uma burrada é, antes de qualquer coisa, uma burrada. A distância existente entre se orgulhar dos erros e cultivar os erros, permanecendo bem tranquilamente neles, é mínima.

Nossa linda juventude


Elefante (2003), filme de Gus Van Sant

A juventude classe média alta de Brasília, de Teresina ou do escambau começa suas festas fazendo piadinhas com o gosto musical das domésticas e dos porteiros e termina-as na maior algazarra etílica, ao som de funk carioca, swingueira e congêneres. Santa bebida que nivela o gosto nacional e revela nosso pauperismo!

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

12 aforismos de Antonio Porchia


Éramos eu e o mar. O mar estava só e só eu estava. Um dos dois faltava.

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Quase não toquei o barro e sou de barro.

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Meus olhos, por haverem sido pontes, são abismos.

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A dor não nos segue: caminha adiante.

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Um coração grande se farta com muito pouco.

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Quando me fizeste outro, te deixei comigo.

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O que somos é para algo que não somos.

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Ser alguém é ser alguém só. Ser alguém é solidão.

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E se o amor é o amor perdido, como encontrar o amor?

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Toda pessoa anônima é perfeita.

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Os sins e os nãos são eternidades que duram momentos.

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O que dizem as palavras não dura. Duram as palavras.
Porque as palavras são sempre as mesmas
e o que dizem não é nunca o mesmo.



Antonio Porchia (1885 - 1968) nasceu na Itália. Em 1900, após a morte de seu pai, mudou-se para a Argentina.  Escreveu o livro de aforismos “Voces”, sua única obra.  Teve entre seus admiradores André Breton, Jorge Luis Borges e Henry Miller.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Paternidade


Sacrifício de Isaac por Rembrandt

Deus me deu o dom da paternidade. E o fato de eu ser pai é o princípio (arqué) de parte considerável dos meus gestos de bondade: como professor, como amigo, como cidadão. Essa convicção faz com que eu reconheça a boa intenção, mas não me encante nem um pouco, com certas exteriorizações pós-modernas do amor pelo filho, como o hábito de tatuar o nome dos pequenos no corpo ou o de escrever a cada minuto nas redes sociais que os ama. Tais gestos são sinceros, verdadeiros – atire a primeira pedra o pai ou a mãe que nunca fez algo parecido! – mas a meu ver absolutamente redundantes. Eles dizem que você ama seu filho, o que todos já sabem, mas não indicam em que esse amor fez você tornar-se uma pessoa melhor. Afinal, não implica grandes méritos nem requer grandes esforços gostar do filho e achá-lo o mais bonito. É amor, mas não amor (ágape) que age em prol do outro. No limite, tais gestos podem ser confundidos com narcisismo oco – e infelizmente, algumas vezes, são isso mesmo. 

sábado, 18 de janeiro de 2014

A Novela do Félix







Do ponto de vista estritamente moral, há mais coisas a se condenar em Camões, Dostoievski, Machado, Pound, Eliot e Céline do que na novela do Félix. O problema da novela do Félix é esquematismo óbvio do roteiro, que beira a incoerência algumas vezes; são as atuações pobremente caricatas e didáticas; é a encenação (mise-en-scène) pobre, material e simbolicamente falando; é a iluminação sem ênfase e às vezes até sem foco. Em suma, só vejo uma forma coerente de se criticar a novela do Félix: ela é esteticamente pobre. Mas ninguém é obrigado a viver diuturnamente nas alturas estéticas de um Bach e de um Shakespeare. Além disso, temos de lembrar que a elevação do nível cultural de um país não se concretiza por meio de canetadas ou de clamores moralistas. Sinceramente falando, acho esnobe a crítica moral da novela do Félix, ou de qualquer outra novela. Minha mãe, evangélica e de conduta moral exemplar, gosta dessa novela e continua sendo a mesma boa mãe e boa cidadã que ela sempre foi. E como ela há milhões de pessoas em todo o Brasil, que querem simplesmente relaxar com uma narrativa curiosa e engraçada – e a novela do Félix, malgrado suas limitações estéticas, é curiosa e engraçada.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Manoel de Oliveira, 105 anos dedicados ao cinema




[É um texto antigo e meramente informativo. Não tenho certeza, mas suponho que o escrevi para uma mostra de cinema na Casa da Cultura de Teresina e o publiquei no Diário do Povo. Republico-o aqui como uma singela homenagem aos 105 anos que o grande diretor completa hoje]

O português Manoel de Oliveira (Porto, 1908) é um dos mais aclamados e influentes diretores do cenário europeu, contando entre seus admiradores Wim Wenders, Jean-Luc Godard e Clint Eastwood. Recentemente, em 2008, recebeu das mãos de Eastwood, em Cannes, “Palma de Ouro” pelo conjunto de sua obra. É o mais longevo diretor da história do cinema, tendo completado 100 anos trabalhando ativamente. É ainda o único cineasta a ter iniciado sua carreira no período do cinema mudo e a manter-se ativo no XXI.

A trajetória de Manoel de Oliveira no cinema se inicia quando, aos vinte anos de idade, ingressou na escola de atores de Rino Lupo, cineasta italiano radicado em Porto, sua terra natal. Em 1933, participou de “A Canção de Lisboa” (1933), de Cottinelli Telmo, o segundo filme sonorizado de Portugal. Em 1942, lançou-se no cinema de ficção com “Aniki-Bobó”. Antes desta data, fizera documentários, muitos dos quais obtiveram repercussão internacional. Por um espaço de tempo, por conta dos fracassos comerciais dos seus filmes, decidiu afastar-se da sétima arte e dedicar-se aos negócios da família. Porém, em 1956, voltou com “O Pintor e a Cidade”. Em 1963, realizou “O Acto da Primavera”, misto de documentário e ficção que constitui um dos pontos altos de sua carreira e do cinema mundial. Sua fase mais fértil, quantitativamente falando, inicia-se na década de 1990, quando passa a realizar praticamente um filme por ano, alguns deles obras-primas da sétima arte.

Seu estilo é marcado por uma preocupação com todos os estratos sígnicos do discurso fílmico. Como observou o crítico Ruy Gardnier, o cinema, para Manoel de Oliveira, é uma “arte inclusiva (catalisadora de todas as artes) e perspectiva (faz refletir sobre todas elas e sobre si própria)”. Como na maior parte do bom cinema europeu, suas produções apresentam diálogos de elevado nível sem, no entanto, parecerem demasiado didáticos – não por acaso, sua roteirista predileta é Agustina Bessa-Luis, uma das grandes prosadoras da literatura de língua portuguesa do século XX. Seus planos são lentos e estudados, de grande exatidão pictórica e forte carga simbólica; sob a câmera estática, a gestualização teatral dos atores convida-nos a uma reflexão sobre a semiótica dos gestos. Estes pontos – que fazem o deleite do espectador intelectualmente mais exigente e versado em artes plásticas – acabam algumas vezes causando estranhamento àqueles que estão mais acostumados ao cinema americano e sua montagem frenética. Assim, é preciso um esforço reflexivo para entender o sentido ritual e simbólico das imagens captadas e recriadas no cinema de Manoel de Oliveira.

Sob o influxo de grandes artistas portugueses, em especial de Camões e Fernando Pessoa, Manoel de Oliveira faz convergirem mito e história em seus trabalhos. De sólida formação humanista e avesso à moda multicultural, Oliveira aposta no cinema como fator de integração cultural (daí o plurilinguismo comum em seus filmes, seus atores de várias nacionalidades e suas referências a clássicos universais de variados países) e enunciador de discursos universais.

Se na pós-modernidade o bombardeio de imagens veiculadas na mídia nos incita cotidianamente a uma recepção semi-distraída, de apreciação sinestésica e irrefletida, o cinema de Manoel de Oliveira deriva grande parte de seu poder transformador de um desafio que nos lança: reatar uma relação reflexiva com a imagem, contemplando seu apuro plástico e buscando compreender os novos efeitos de sentido que se produzem quando do seu contato com a palavra e com a música.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Caímos todos



Sim, caímos todos. Teses gerais sobre psicologia das massas e prognósticos sobre o que ocorrerá na Copa, neste momento, ajudam, mas muito pouco. O fato é que para grande parte dos torcedores (dentro e fora do estádio) não havia pessoas machucadas, mas sim vascaínos e atleticanos. Outro fato é que a partida reiniciou e muita gente continuou lá torcendo, como se nada de trágico tivesse ocorrido. É possível elaborar, mais ou menos nos moldes do pensiero debole de Vattimo, algo como uma política de enfraquecimento das convicções torcedoras ou a única coisa a fazer é erigir grades mais fortes e reforçar o contingente policial nos estádios?

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Dos livros que não lemos



A pletora de livros que não lemos e que descansam ao nosso lado, em nossa biblioteca, ou em alguma livraria, à nossa espera. Isto deve ser para nós motivo de júbilo e não de desespero. (O único desespero real é o acúmulo irracional, porque compulsivo, de livros; ou, como alertava Schopenhauer, acreditarmos que a simples posse material de um livro nos dará acesso ao seu conteúdo). O desejo sincero de ler tudo o que nos interessa – mesmo que esse “tudo” seja superior à capacidade de uma vida – enche nossa vida de esperança, acena para um futuro de agradáveis encontros, nos segreda a possibilidade constante e real de uma virada em nossa existência. Quem tem muita coisa para ler não tem pressa de morrer. Olho para a estante à minha frente e vejo os dois volumes de “A Cidade de Deus”, de Santo Agostinho. Eu sei que preciso lê-los um dia. Talvez nas próximas férias, quem sabe. Aqueles dois volumes são dois faróis de esperança em minha vida... e se, lendo-os, eu me tornar outro, alguém melhor? Nem todas as promessas e expectativas positivas que compactuamos com a leitura se cumprem. Isso é óbvio e não deve nos entristecer ou desestimular. Uma esperança não cumprida que, de qualquer forma, nos move em busca do autocultivo já não pode ser creditada como tempo perdido; além disso, um grande livro que nos decepciona hoje pode nos ser fundamental amanhã – quase todo leitor tem uma história dessa natureza para contar. Os livros que ainda não lemos, mas que acreditamos com sinceridade que precisamos ler, contêm em potencial a nós mesmos numa versão, seja em que ponto for, melhorada.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Luiz Costa Lima: “Frestas: a teorização em um país periférico” (RJ, Contrapondo/PUC, 2013)


Recebi ontem o novo livro do mestre Luiz Costa Lima: “Frestas: a teorização em um país periférico” (RJ, Contrapondo/PUC, 2013). Pelo que eu pude vislumbrar numa rápida olhada, o livro cumpre quatro desígnios: é um testamento biográfico de uma trajetória ímpar, uma súmula dos temas que obsedaram o autor em sua trajetória intelectual (“mímesis” e “controle do imaginário”), uma reflexão nada otimista sobre o sistema intelectual brasileiro e – a parte mais importante a meu ver – um avanço na teorização do estatuto da ficção: Costa Lima extrapola o âmbito propriamente literário para refletir sobre o funcionamento da ficção no cotidiano. Desdobra, assim, aos nossos olhos o conceito de “ficção externa”, já aludido na obra anterior – “A ficção e o poema” (2012). Já comecei a ler a obra e breve espero escrever sobre ela. Fica, de antemão, minha sugestão de leitura aos colegas da área!



quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Retalhos [4]: Rei do camarote, homem emocional, empatite etc


# 1

Sobre o REI DO CAMAROTE, duas observações: 1) Como supostamente falou Borges, "o luxo é a forma mais dispendiosa da vulgaridade"; 2) Haja ressentimento coletivo! Ver gente que só não é tão vulgar como o "rei" por não ter recursos a pregar lições de humildade e bom senso é de embrulhar o estômago!

# 2

“Cada período da história tem seu tipo humano ideal. A sociedade medieval conheceu o cavaleiro valoroso e cortês. O Renascimento inventou o homem da corte, il cortegiano, mescla harmoniosa de decoro, elegância, virtude e fidelidade ao príncipe. O século XVII teve o homem de sociedade, o século  XVIII, o filósofo esclarecido, e o século XIX exaltou o empresário audacioso, o ‘burguês conquistador’. Qual é, em nossa época de individualismo extremo, o tipo humano ideal? É o ser que cultua a emoção, o homem emocional, o Homo sentiens.
(...)
O ideal do homem emocional é acompanhado por uma exigência de autenticidade. O indivíduo só é ele mesmo, enuncia esse ideal, a partir do momento em que pode sentir e exprimir as emoções que nos agitam a alma.
(...)
Com essa exigência de autenticidade articula-se uma filosofia antiintelectualista, que está em plena ressonância com o espírito de nossos tempos. O culto da emoção inverte a escala habitual das faculdades da alma. Faz com que a celebridade desça do seu pedestal. A existência realmente humana, segundo ele, não é a que nos leva à intelectualidade, mas a que conduz ao sensório, ao primitivismo dos sentidos.”
(Michel Lacroix, “O culto da emoção”, 2006, p. 37-38)

# 3

Amigos e amigas que compram no Estante Virtual! EVITEM comprar pela LIVRARIA PAPIRUS SEBO, de Curitiba. Comprei o livro "Destino e Identidade", de Hubert Lepargneur, no início de setembro e até hoje nada! Começaram culpando os Correios e agora sequer me respondem. Compro no Estante Virtual desde 2006, já fui até vendedor por lá e nunca isso havia me acontecido. A LIVRARIA PAPIRUS SEBO NÃO É SÉRIA!

# 4


Posso me esquecer de muitas coisas, mas jamais da primeira camisa do Corinthians que eu ganhei. Em meados da década de 80, meu amigo e parente Manoelpereira veio de São Paulo para Valença-PI com uma Kalunga-Topper dessas e, ao saber que eu era corinthiano, me presenteou com ela. Não sei se em toda minha vida cheguei a ganhar um presente melhor. Até hoje a simplicidade do modelo da Kalunga-Topper anos 80 me fascina: é a minha preferida de todos os tempos. Minha primeira namorada acho que se chamava Leda, não lembro bem. Mas da primeira camisa do Corinthians eu nunca me esquecerei.

# 5

30 milhões de brasileiros estão sofrendo de uma doença chamada EMPATITE. Os principais sintomas desse mal são o tédio, a apatia, o sono frequente e o desapego ao time do coração.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Retalhos [3]


"A Razão do Poema", de José Guilherme Merquior, acaba de ser relançado pela É Realizações. Fiz um posfácio para esta nova edição - "A razão poética segundo José Guilherme Merquior" - explorando basicamente dois pontos: a ligação daquele livro com a obra posterior de Merquior e os valores que guiam as escolhas e os julgamentos do autor nos ensaios críticos e analíticos ali contidos. Um dos poucos livros sobre poesia, escrito por um brasileiro, que podemos qualificar de clássico imprescindível.


*

DE UM DIÁLOGO COM MEU FILHO

-Aquela parte do livro que a gente pula.
- Qual, Icaro?!
- O prefácio.

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E em meio às habituais - e não raras vezes, justas - contestações ao Prêmio Jabuti, tomo ciência de que meu mestre LUIZ COSTA LIMA conquistou um justíssimo primeiro lugar na categoria "Teoria e crítica literária" com o seu A FICÇÃO E O POEMA. Tive a honra de ser um dos primeiros a comentar brevemente aquela obra e fazer uma rápida entrevista com seu autor, na dEsEnrEdoS. Quem desejar re/ler, eis o link: http://desenredos.dominiotemporario.com/doc/15-ent-LCostaLima.pdf

*

Descobrir que importamos pouco, e para bem poucas pessoas, é desconfortante no princípio e uma alegria duradoura quando refletimos mais a fundo. Como disse um filósofo, quem ama demasiado a humanidade se esquece do homem concreto. Quem diz que tem 500 amigos é provável que tenha de fato 1 ou nenhum; quem diz que tem 3 é bem capaz de ter realmente 3 amigos. Quando essa descoberta de nossa pouca importância se dá num contexto de fé autêntica, alegria torna-se mesmo uma palavra insuficiente, imprecisa: talvez devêssemos falar em graça. Falta bom senso e maturidade - acima disso, falta fé - em quem quer ser marcante a qualquer custo e para um monte de pessoas. Raras são as celebridades sem pés de barro e os populares sem laivos de fascismo.



segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Santa Teresa d'Ávila, padroeira dos professores


Hoje é o dia dos professores, cuja padroeira é Santa Teresa d’Ávila, a grande mística espanhola do século XVI e, para mim, a maior escritora de seu idioma. A respeito da grandeza e da significação cultural de Teresa d’Ávila, Carpeaux escreveu uma belíssima síntese no artigo “A lição de uma santa” (http://www.rainhamaria.com.br/Pagina/11267/Artigo-de-Otto-Maria-Carpeaux-A-licao-de-uma-Santa). Sua obra “O castelo interior” é a que mais recomendo: está sem dúvida entre o que de melhor e mais profundo produziu a humanidade em qualquer época e lugar. Em 2009, traduzi dois poemas da santa para a dEsEnrEdoS: http://desenredos.dominiotemporario.com/doc/02_traducao_-_teresa_davila_-_wanderson.pdf. Próximo ano virá à luz, pelas Edições Nephelibata, um pequeno volume de poemas dela e de Juan de La Cruz traduzidos por mim.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Retalhos [2]






Tá certo, tudo bem: toda seleção é questionável e pode ser que bons e ótimos poemas tenham ficado de fora (lembro pelo menos de um do Torquato e outro do Leminski melhores que os selecionados). Mesmo assim me espanta a debilidade dos 10 poemas escolhidos - a imaginação rasteira, o nível cognitivo e o domínio linguístico ginasianos, a pobreza experiencial e a secura espiritual. Eu não tenho dúvidas de que tomada em seu conjunto, desconsiderando portanto esta ou aquela contribuição individual, a Poesia Marginal foi a pior merda que aconteceu à poesia brasileira no século XX

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"Causou-me sempre uma certa angústia pensar que todas as línguas se limitam a meia dúzia ou uma dúzia talvez de palavras para nomear tudo o que uma pessoa pode sentir por outra, pode pretender de outra. Enquanto que os vocabulários da agricultura, da pecuária, da caça, da guerra, dos jogos são prolixos, minuciosos, inesgotáveis, o da convivência pessoal é incrivelmente tosco. E como a língua fornece a pauta da primeira interpretação da vida, a prisão linguística obstrui a liberdade das relações pessoais. Não sabemos bem o que pretendemos de cada pessoa - e de fato não o pretendemos e não o conseguimos - porque não temos palavras com que o nomear" (JULIÁN MARÍAS, "Antropologia metafísica", p. 235-236)


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O Facebook é o lugar inautêntico onde as pessoas mais clamam por autenticidade. Não suporto mais esse lengua-lengua de 'seja você mesmo e viva feliz'. Primeiro, é uma grande besteira esse papo de ser feliz; quem cai nessa vive geralmente mentindo para si e para os outros, levando bofetada da vida e fingindo que está sendo beijada. Segundo, ser você mesmo custa caro: a autenticidade raramente é premiada. Se você quer ser você mesmo, ainda que seja uma pessoa polida e compreensiva, prepara-se para as porradas do mundo!

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“Trazendo o texto para a realidade...”. De cada dez vezes que ouço esta frase, em nove delas a pessoa quer mesmo é recusar o esforço interpretativo e ficar no seu mundinho particular. Pura negação da alteridade.

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“A vida é um combate cotidiano contra a estupidez própria” (Nícolas Gómez Dávila).

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Olhos de serpente (Dangerous game / Snake eyes, EUA, 1994), de Abel Ferrara


Os personagens de Abel Ferrara encontram-se na encruzilhada entre o vício e “o salto para a fé” (Kierkegaard). Não há espaço, no mundo de Ferrara, para outro tipo de gente senão o libertino e o convertido (ou o libertino a caminho da conversão). Trata-se, portanto, de um mundo movido pelo excesso, um mundo situado à beira de um apocalipse, onde a medida do bom senso não tem vez. Se os personagens vivem a danação, o estilo lhes faz jus: Ferrara é rigoroso, elabora com cuidado a encenação, mas faz isto desprezando olimpicamente a tomada rara e o efeito belo. Quando a beleza aparece, aparece submetida à idéia. Religioso, mas também trágico, Ferrara não contempla, não poetiza. Em vez do plano-sequência “espiritualizado” de Tarkovski, a câmera de Ferrara treme, tateia, alucina. 

Olhos de serpente (1994) está longe de equiparar os melhores filmes de Ferrara (O Rei de Nova York, Vício Frenético, Maria), mas representa com muita dignidade a insistente imersão de Ferrara nas entranhas do homem em danação, dos degradados carcomidos de culpa. Eddie (Harvey Keitel) é um cineasta que está filmando uma história a la Bergman sobre um casal em crise. Sua dupla de atores é formada por Francis (James Russo) e Sarah (Madonna, provando ser atriz de primeiro time). No filme dirigido por Eddie, o conflito básico é gerado pela incompatibilidade de gênios entre Sarah, recém convertida, e Francis, que não só continua na “bagaceira” como também não suporta a nova vida de Sarah. Estamos num palco que Ferrara conhece bem: o do destino humano dividido entre danação e salvação num mundo regido pelo mal.

Como no conto “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, de Jorge Luis Borges, a ficção (encenada no filme de Eddie) começa a envenenar a realidade, e o cotidiano dos protagonistas do filme e também o do diretor começa a desabar. Francis é a primeira vítima, ao se perder na intensidade do seu papel, mas nada é mais dolorosamente degradante do que o progressivo esfacelamento da família de Eddie (esfacelamento, aliás, que já se anuncia sutilmente na primeira cena do filme). Ao recorrer a mise en abîme, mostrando o filme dentro do filme, Abel Ferrara quer menos refletir sobre os processos de sua arte do que nos falar de algo (em termos metafísicos) muito mais grave: o mal. Sobram farpas também para Hollywood e sua indústria do estrelato. Muitos elementos de Olhos de serpente foram retomados e aprimorados no espantoso Maria (2005), sobre qual um dia terei de escrever.


terça-feira, 24 de setembro de 2013

Retalhos [1]


Se há uma marca singular da cultura universitária brasileira hoje é a presença soberana, impositiva, dos formulários. Uma das principais atividades de um professor com doutorado em uma universidade pública hoje é preencher formulários; sua principal virtude é a paciência. Capacidade intelectual e domínio de escrita são importantes, mas não imprescindíveis: um professor burro e incapaz de articular duas frases com um conectivo correto, se tiver paciência e pegar o jeito do gênero formulário, preenchendo-o com aquelas fórmulas batidas, pode mover mundos.

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A dEsEnrEdoS acaba de conquistar o Qualis B4 na área de Educação. Antes já possuíamos aquela qualificação em Letras, História, Filosofia e Teologia. Nosso Qualis até poderia ser maior, mas é sempre bom lembrar que somos independentes, sem vínculos com editoras ou programas de pós-graduação. O que nos alegra é que, desde o princípio, procuramos estimular o debate de Humanidades sem preconceitos, embora tomando como eixo central a Literatura. Não por acaso nos denominamos "uma revista de cultura e literatura". Agradeço aqui a todos que, direta ou indiretamente, contribuíram nesses anos com a revista!

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A leveza custa caro. É difícil. E às vezes apenas procrastina uma dor maior. Por isso eu gosto tanto dos islandeses do Múm: http://www.youtube.com/watch?v=VeaRDcdwrZg


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O IRON MAIDEN é minha madeleine proustiana. Uma parte de minha história adolescente passa como um filme em minha cabeça quando os caras começam a tocar. Eu nem sei se estou aqui onde me encontro ou se estou lá em Valença, no início dos anos 90, com alguns amigos que me são diletos até hoje.

Falo isso tudo do Iron Maiden sem fazer nenhum ajuizamento estético sobre a banda que hoje ouço muito pouco. A maior besteira do mundo é supor que só as grandes obras e os grandes mestres abalam profundamente a nossa vida.

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"Escrever as coisas tal como aconteceram é tornar-se escravo de sua própria memória, que é um elemento menor do processo criativo [...]. Os materiais são de fato extraídos da vida do autor, mas em última análise a criação é uma criatura independente [...]. A realidade é sempre mais forte que a imaginação humana. Além disso, a realidade pode se dar ao luxo de ser inacreditável, inexplicável, desproporcional. A obra criada, infelizmente, não tem esse direito." (Aharon Appelfeld)

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Há um bom tempo venho dizendo que o espaço de comentários de sites e blogs é o esgoto da notícia. Sob o pretexto de democratizar o debate, este espaço tem servido mesmo é para escroques e pusilânimes, escondidos sob a proteção do anonimato ou do perfil fake, despejarem ignorância, preconceito e grosseria. Lendo agora mesmo, no blog do Alfredo Werney, os comentários de anônimos a uma crítica que ele fez do filme "Cine Holliúdy" reforcei esta minha crença. Apenas um comentário, embora grosseiro, propõe uma leitura alternativa; o restante nem merece ser lido até o final. Me solidarizo com o Alfredo e com todas as pessoas que, sem ganharem um centavo, buscam impulsionar o debate cultural na rede e só ganham em troca as patadas de covardes que sequer têm a hombridade de mostrarem a cara. Discordar só é válido se houver bom senso e argumento - quem só sabe xingar está num nível infra-humano de convivência.

sábado, 31 de agosto de 2013

Toy Story 3 e o estatuto da imagem nas animações


As animações constituem um setor do cinema onde os rastros da magia e do mito podem ser percebidos sem muita dificuldade. Daí, não é de surpreender que nos defendamos das animações, nós racionalistas desencantados, exorcizando suas ambiguidades seja por meio de um discurso destimificador que busca baratear o sentido das imagens, traduzindo-as a partir de categorias das hermenêuticas da suspeita (Ricoeur) – ideologia, inconsciente, estrutura etc –, seja alcunhando-a de infantil, como se isso significasse superficialidade, entretenimento não instrutivo, passatempo bobo.

Não devemos pensar que a imagem, da animação ou do cinema em geral, seja intraduzível, nem que sejam ilegítimas as explicações derivadas das hermenêuticas da suspeita. O que parece ilegítimo é o uso puro e simples da animação, para desmitificar ou ainda para moralizar. Há um ódio à arte, ou pelo menos uma insensibilidade patológica, naqueles que só sabem vê-la como ilustração de forças ou verdades exteriores a ela. Pensemos numa professora bem intencionada que usa um produto como Toy Story 3 (Lee Unkrich, EUA, 2010) para reforçar um discurso edificante sobre a amizade ou num crítico cultural que se vale da mesma obra para demonstrar a aliança entre a indústria cinematográfica, consumo e reificação. Quem há de negar que Toy Story 3 seja uma bela parábola sobre a amizade? Quem também há de negar que o filme abusa do merchandising, elevando, por exemplo, a chatinha da boneca Barbie – cuja filosofia de vida (um amálgama grotesco de consumismo, egolatrismo, “coleguismo”, hedonismo, ecologismo, feminismo, moralismo e fetichismo) é das mais estúpidas já imaginadas neste planeta – ao status de heroína altruísta e até simpática?

Penso, porém, que Toy Story 3 escapa com folga dessas simplificações. Como um de seus modelos ancestrais – “O soldadinho de chumbo”, de Hans Christian Andersen –, ele aceita, por seu caráter de parábola, ser simplificado, mas é tão cheio de sutilezas, tão eivado de imagens susgestivas, que logo se vê a incompletude e, em alguns casos, a farsa de tais simplificações. O mundo de Toy Story 3, assim como o do soldadinho de Andersen, é fantástico e crível; é aconchegante e misterioso; está bem longe e bem perto de nós. Além disso (sou tentado a dizer: acima disso), são mundos regidos por uma honestidade notória perante os eventos da vida. Por isso, apesar de serem mundos preferencialmente “para crianças”, neles a velhice, a morte, a solidão e o abandono não são mascarados por piadinhas. Há humor? Sim, mas não um humor que seja um virar de costas para a vida “real”, com seus problemas “reais”. Em Andersen, o lirismo de uma sensibilidade profundamente religiosa doa beleza a eventos como a morte, o frio e abandono sem que a verdade do evento seja esmaecida; na trilogia Toy Story quem filtra o lado “feio” da vida (morte, abandono) de seus temores e nos devolve a sensatez necessária para encarar as durezas da vida é o magnético cowboy Woody, desde sempre o brinquedo preferido de Andy.

Nos últimos dez anos de cinema estadunidense, Woody é um dos personagens mais maduros que apareceu; sua capacidade de auto-sacrifícios em nome de seus credos e de sua “família” lembra alguns heróis de Clint Eastwood (por exemplo, o Walt Kowalski de Gran Torino).

Eu gostaria aqui de tentar destecer um pouco a complexa rede de simbolismos e alusões que Toy Story 3 tece. Pensar um pouco mais sobre o contraste entre tradição e modernidade que o filme elabora a partir da contraposição entre cowboy Woody e herói espacial Buzz; pensar o caráter desmontável de Sr. e da Sra. Cabeça de Batata à luz das idéias a respeito das identidades fragmentadas da pós-modernidade; pensar com Foucault sobre a vinculação entre instituição e produção de regimes de verdade, a fim de entender melhor a domesticação dos corpos e a produção de subjetividades na creche de Sunnyside. Poderia também mostrar como o filme desmonta uma série de preconceitos e estereótipos com bastante humor e uma inteligência muito acima da média – por exemplo, pôr um ursinho rosa e cheirando a morango silvestre como vilão-mor; reverter a alienação religiosa dos 3 marcianinhos (“O Garra!...”) em fonte de salvação dos demais brinquedos, quase consumidos por um incinerador muito semelhante ao Inferno de certa vertente do imaginário cristão; satirizar de maneira politicamente incorreta o homossexualismo recalcado do egocêntrico Ken. Porém, mais importante do que tudo isso, para quem de fato gosta de cinema, é a convivência amorosa com as imagens que nos impactaram. Nisso há uma sabedoria que não se desvincula do afeto.



quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O Rap polêmico de Kedé


O ódio destilado pelo rapper Kedé não é justo mas é justificável. É preciso muita cegueira social ou muito cinismo para, sem hesitações, tachar Kledeilson Barreto de marginal e coisas do tipo - como fizeram muitos veículos de comunicação - e não enxergar razão nenhuma na revolta social dele. Não sou dos mais adeptos à ladainha do vitimismo social, sei que o jogo de forças é muito mais complexo - mas, neste caso específico, Kledeilson não está reclamando à toa. Assim como meu amigo Thiago E Ah, torço por um diálogo construtivo entre as partes em querela. Mas, cá pra nós, acho que uma das partes interessadas, o RONE, vai querer desforra. E desforra sem alarde público nenhum. Não faço com isso um julgamento moral do RONE, não tenho conhecimento de causa para tanto, mas me baseio no que vi sem que ninguém precisasse me contar. Vi, me choquei e não trarei a público porque não filmei nem fotografei. Por mais justos que sejam os policiais do RONE, eles estão de orgulho ferido e terão dificuldade de lidar com o que consideram uma 'ameaça pública'. E o pior é que a mídia alimenta a rixa: quer estender o equívoco espetáculo, mesmo que isso não seja o melhor para a sociedade em geral.

sábado, 27 de julho de 2013

Dilemas da crítica literária nacional

Parte considerável da crítica brasileira tem um problema grave, que é a falta de um olhar comparativo. Por exemplo, um problema real da crítica formada na universidade hoje em dia é o estreitamento preocupante do horizonte de leitura. Os críticos analisam apenas os textos que confirmam as suas opções teóricas prévias e que levam à leitura de uma única família de autores.

- João Cezar de Castro Rocha, nesta entrevista aqui.